Pioneiros, entre verdade e fantasia

OS IRMÃOS SEGRETO

A 13ª edição da 8½ Festa do Cinema Italiano está quase chegando ao fim, e eu não tive tempo de me dedicar um pouco a ela. Mas corri atrás de um dos grandes destaques da programação, a coprodução ítalo-brasileira Os Irmãos Segreto. Nesta quarta-feira haverá uma sessão especial do filme às 20h40 no Estação Claro Rio com a presença do diretor Federico Ferrone. A programação completa do Rio pode ser vista aqui.

Talentos de Brasil e Itália se juntaram para contar a história dos três irmãos italianos que deram o pontapé inicial no cinema como negócio no Brasil. Paschoale e Gaetano chegaram em 1883 ainda adolescentes, e mais tarde trouxeram Alfonso, o irmão mais novo. Depois de atuarem na contravenção, serem presos diversas vezes e montarem uma banca de jornais, eles aos poucos entraram para o ramo do entretenimento, sendo Paschoale (agora Pascoal) coroado como rei do setor. Teatro, cinema e diversões mais picantes formavam seu cardápio.

Não restaram muitas evidências dessa história. Registros, tampouco. O único filme rodado por Afonso Segreto que resistiu ao tempo é um desfile de batalhão de 1910, que é mostrado integralmente no filme de Ferrone. Tudo é bastante nebuloso, e a narração deixa isso claro logo no início, ao afirmar que usará a fantasia quando não encontrar a verdade.

Ainda assim, é fácil encontrar informações fidedignas sobre os Fratelli Segreto, que podem ratificar as verdades e desmentir algumas fantasias do filme. Um exemplo: não é verdade que Afonso teria filmado a entrada da Baía de Guanabara quando chegava pela primeira vez ao Rio, chamado pelos irmãos. Afonso já trabalhava aqui e, em 1898, voltava de uma viagem a Paris para comprar câmera e películas. As imagens filmadas do navio teriam sido as primeiras rodadas no Brasil.

Assim como nunca foi provada a existência desse filme para além de uma notícia de jornal, também não se pode comprovar outras tantas afirmações feitas pela narração, às vezes em forma de hipótese. Não sei o que pensa disso o consultor oficial do filme, o inquestionável Hernani Heffner. O texto é esparso, narrado por Paulo Betti em tom coloquial e romantizante. As imagens de arquivo se demoram na tela numa proposta hipnótica, para o que contribuem a música aliciante e o desenho sonoro de Simonluca Laitenpergher.

Mas é justamente aí que Os Irmãos Segreto destila seu fascínio. Entre cenas de época que se prolongam na tela para simples efeito imersivo, surgem imagens esplêndidas do Rio do início do século XX. Vêm de filmes de Silvino Santos, Alberto Botelho, Cornélio Pires e outros, além de materiais colhidos na Inglaterra e nos EUA. Panorâmicas deslumbrantes sobre os telhados da região central, ondas enormes batendo na mureta da Praia do Flamengo, uma chegada à região portuária a bordo de uma embarcação e muitas outras cenas nos transportam para um Rio que nem nossos pais chegaram a conhecer. A deterioração de algumas imagens é alçada a valor estético no uso que delas se faz.

Cenas gravadas no Rio atual fazem uma ponte entre o passado e o presente da cidade, sobressaindo-se o velho cinema Íris e as ruas comerciais do “Saara”. A decadência e fim da Empreza Paschoal Segreto é ilustrada por cinemas de rua que não resistiram aos novos tempos.

Vez por outra, nota-se um viés um pouco arrogante no texto quando se refere ao Rio daquela época. “Miséria urbana feroz” e “cidade moderna e ignorante” são termos que traem um complexo de superioridade europeu. Mas sobram farpas também para Pascoal Segreto, apontado como um homem que “não entendia nada de cinema, nem de teatro”.

Seja como for, com suas virtudes, falhas e excessos de romantização, Os Irmãos Segreto é um deleite para os sentidos e para os amantes das imagens do passado. Mesmo que as informações sobre os seus personagens estejam mais fartas e mais precisas em livros, artigos confiáveis e mesmo na Wikipedia.

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